Não tem um dia que eu não grite uma oração para Maria ou Jesus Cristo e, principalmente, para meu anjo da guarda. Às vezes o motivo é doença, às vezes é neurose e há vezes que é porque se eu não tiver lá cuidando, alguém tem que estar.
Dia desses acordamos cedo e o pai estava doente (todos nós estávamos doentes) dormindo. Luna quis iogurte e eu tinha preparado meu café da manhã. Sentamos juntas no sofá com todas as comidas na mesinha de centro. Você já sabe o que vai acontecer, antes de sentar eu já sabia que poderia acontecer, mas preferi acreditar que era neurose e não intuição.
Luna bateu a mão no copo de iogurte e derrubou metade no tapete da sala.
Era um desses dias em que a gente já acorda exausta e eu senti vontade de gritar, mas segurei o choro. Eu tinha que limpar tudo sem traumatizar a criança e rápido, para a bagunça não aumentar. Tirei ela do meio do caminho, levantei o sofá, empurrei a mesinha, puxei o tapete e toda a sujeira que Pepe levou para debaixo do sofá se espalhou, arrastei o tapete para a varanda, fechei a porta pra Luna não sair, desci o sofá de volta e deixei ela sozinha na sala, com Pepe.
Lá fui eu para o quintal jogar água no tapete para arrancar todo o iogurte encrustado. O tapete é de cisal e já até perdeu a forma de tantas vezes que foi lavado. Enquanto eu jogava água, comecei a rezar.
Quem tem filho miúdo sabe que não se pode deixar sozinho por dois minutos. Eu rezava automaticamente a minha lista de orações programadas para oras de desespero, primeiro Ave-Maria que também é mãe e sabe das coisas, depois Anjo da Guarda porque é meu e é dever me ajudar, terceiro Pai Nosso que, apesar do poder imenso, é Deus de um monte de gente.
Dizia “anjo da guarda, cuida de Luna enquanto eu não posso olhar. Misericódia, meu Deus, se acontecer alguma coisa. Minha mãe, cuida de Luna, peloamordedeus”.
A parte mais difícil da limpeza é depois pendurar o tapete molhado no varal de forma que ele fique retinho, para não entortar. Não consegui, ficou todo embolado e eu saí mesmo assim. F0da-se, já não gosto dele mesmo…
Quando cheguei na sala Luna estava com a mão na boca e olhou para mim com cara de quem estava aprontando. Era o pedaço de um eixo de um carrinho de plástico que Pepe roeu e tinha caído no chão quando eu retirei o tapete.

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